Os aprendizados (técnicos e de mindset) da vida remota na pandemia

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Fico perplexo como um minúsculo vírus causou um impacto tão profundo em nossa sociedade. Não lembro de ter passado por tamanha necessidade urgente de gestão de crise, de resiliência, de adaptação e outras mudanças, como neste período. Também de medo, ansiedade, bloqueios mentais… Mesmo no angustiante período do Plano Collor I (1990), onde houve um “congelamento/ confisco” por 18 meses de todos os valores monetários dos brasileiros acima de 50 mil cruzeiros, o que foi um choque profundo na mentalidade da população…

Nesta vida de home office e isolamento social, pudemos nos conectar ao mundo, pessoas de relação familiar, amigos e colegas de trabalho como nunca. Inauguramos eventos/reuniões com meus parentes nos EUA, Brasil e Israel. Participei de eventos meditativos com pessoas de todos os continentes. Várias jornadas do conhecimento, incluindo um retiro espiritual de prosperidade de dentro da minha casa. Aulas de pilates e yoga em minha sala ou quarto. Lançamento de música de amigo no Spotify. Provas de vestibulares de meus filhos. Consulta médica via Skype.

Com esta vida remota, tive a oportunidade única de ouvir personalidades nacionais e internacionais, como Tony Blair; Richard Barrett, criador do modelo dos sete níveis de consciência; Charles Duhigg, autor do livro “O poder do Hábito”; Simon Sinek, autor de livros como “Comece pelo Porquê”; os ministros Tarcísio Gomes de Freitas e Paulo Guedes. Ver a Ivete Sangalo de pijama, conhecer as casas de cantores e atores famosos. Participar em sessão de comitê normativo da ISO ao vivo. Fazer cursos no MIT e universidades americanas. Ouvir as experiências disruptivas de importantes investidores e empresários de startups do Vale do Silício e no Brasil (p.ex. do Ifood); o Presidente do conselho de administração do COSO, e até o ex-piloto de fórmula 1 Felipe Massa falando de investimentos.

Parece unânime que a digitalização avançou 5-10 anos em poucos meses. Creio que esta possibilidade ímpar será mantida, pois é eficiente, inclusiva e barata.

Lembro-me de minha primeira viagem aos EUA em 2000, quando fomos pesquisar sobre ferramentas e conteúdos EAD na Universidade de Berkeley/CA, e percebo o tamanho da evolução. Agora, duas décadas depois, os MOOCs já são uma realidade há quase 15 anos, e já sinalizavam para as possibilidades do agora. Lembro-me de participar na década de 90 de videoconferências em cliente com suas unidades, tecnologia de poucas grandes empresas, mas que foi se expandindo com o tempo.

Nós, que vivemos em serviços de consultoria, treinamento e auditorias dentro de organizações, sentimos os grandes impactos deste pequeno não-ser- vivo. A manutenção dos sistemas de gestão foi dificultada pelas distâncias entre os colaboradores (os administrativos, em sua maioria, trabalhando em casa), pela dedicação total à sobrevivência, deixando para depois o não prioritário. A continuidade dos negócios o exigia, isto é ponto pacífico. Estava em serviço na semana antecedente ao isolamento, em serviço remoto durante o lockdown, em serviço presencial pontual durante o isolamento. Trabalhando com assuntos por vezes “secundários”, como a manutenção da ISO 14001, ISO 9001, ISO 45001, ISO 37001 e ISO 19600.

Creio que muitas pessoas tiveram de rever suas prioridades, mindset, propósitos, visão. Eu dentre elas. Conto aqui um pouco disso. 

ALGUNS APRENDIZADOS SOBRE O NOVO MODUS OPERANDIS DIGITAL REMOTO

  • As atuais tecnologias de informação e comunicação permitem realizar coisas impensáveis antes, como reunir centenas (ou milhares) de pessoas, com possibilidade de interação e atividades. Ela potencializa as mensagens e os conteúdos;
  • Claro que ela tem limitações, como a falta da presença física, da troca de emoções e a linguagem não verbal;
  • O seu excesso supera de longe o cansaço das reuniões e treinamentos presenciais, pois a necessidade de atenção é muito maior. A tentação de fazer 2 coisas ao mesmo tempo, durante as falas, é grande;
  • A qualidade continua e deve continuar a estar presente, porém adicionando novas características, como a capacidade de motivar pessoas que não sabemos estar presentes, ouvintes ou se foram tomar café, cuidar das crianças ou avaliar outros documentos em paralelo.  Nos tornamos um pouco atores, um pouco youtubers, um pouco produtores de vídeos, e diretores de arte. A economia da experiência se elevou a patamares medidos em segundos. A mudança do culto ao caráter para o culto à personalidade, que já vinha acontecendo há 100 anos, foi catapultada;
  • Os webinars, congressos, eventos, palestras e cursos estão virando uma comunidade em si, temporária, porém com os mesmos ingredientes – o chat acaba virando um canal de interação e local de encontro dos participantes, de troca de abraços entre conhecidos, de comentários sobre o evento, de canal de dúvidas, de resposta a enquetes, etc. Os eventos geram grupos no whatsapp e telegram;
  • As anotações de quem aprende escrevendo passam a ser mais rápidas e fáceis. Porém a interação dos sinestésicos fica mais prejudicada. Os webinars/palestras sem apresentação de slides/documentos complicam a vida dos visuais. Para os auditivos, é o Olimpo;
  • Esta linguagem já está no DNA das novas gerações Z/millenials, que deve se sentir à vontade. Eu, que sou intermediário entre a geração baby boomers e a X, me sinto um pouco invadido, e acho tudo muito rápido demais. Dependendo do apresentador, realmente as informações são bastante aceleradas. Cabe um cuidado sobre isso;
  • Por outro lado, para aqueles que são do time do “Poder dos Quietos” (veja o livro de Susan Cain), o evento online é bom para ouvir sem correr muitos riscos. Mas o anonimato não é muito bom para os apresentadores;
  • As ferramentas de atividades e enquetes para eventos online ainda tem um grande salto a dar: já é possível vislumbrar alguns destes avanços, com mentimeter, kahoot, e outros;
  • Como palestrante e professor, ainda tenho de me acomodar melhor com as ferramentas no momento das apresentações e realização de atividades. As interfaces e trocas entre zoom/teams/meet/gotomeeting/ webex/outras com ferramentas de atividades ainda demanda esforço desnecessário. Mas rapidamente isso será superado pelos desenvolvedores.

De uma certa maneira, pela natureza de minha atividade de consultoria, treinamento e auditoria, foi possível realizá-las à distância com benefícios que superam os custos e as barreiras do isolamento social.

ALGUNS APRENDIZADOS SOBRE OS CONTEÚDOS DISCUTIDOS DURANTE O PERÍODO DE PANDEMIA

  • O mundo VUCA (volátil, incerto, complexo e ambíguo), termo extensamente difundido, virou VUCAH (acrescentando-se o H de hostil – ou H de hiperconectividade, segundo alguns autores). Mas, segundo outros autores, o VUCA virou também BANI (frágil, ansioso, não linear e incompreensível), termo cunhado pelo antropólogo e historiador Jamais Cascio, da University of California, membro do Institute for the Future, no artigo Facing the Age of Chaos.
  • é consenso entre os vários especialistas que ouvi nos eventos, tanto no meio tecnológico, financeiro, acionário, de governança e político, que a gestão da sustentabilidade nos moldes do ESG (environmental, social and governance) é critério fundamental para a sobrevivência e perpetuidade das organizações, e o mercado está percebendo valor neste critério. Neste ano ocorreram diversas situações e fatos impactantes em ESG, tais como a discussão sobre os desmatamentos e queimadas na Amazônia, a mudança da política ambiental americana diante da vitória do democrata Joe Biden, a discussão do aquecimento global durante a reunião do G20; os eventos em torno das mortes de George Floyd e a mais recente no supermercado Carrefour no RS; o lançamento de diversos produtos de investimento em empresas com desempenho melhor em ESG; sem falar da própria adaptação das empresas à crise sanitária e de saúde do covid19 (já prevista pelo Fórum Econômico Mundial como um dos maiores riscos globais em 2020). Linhas de produtos de investimentos foram lançados neste ano durante a pandemia, em diversas corretoras. Também há a expectativa de um banco/corretora lançar o primeiro produto nacional de crédito de carbono;
  • O choque do isolamento social e do combate ao coronavirus foi grande por todo o planeta. As organizações repensaram suas estruturas de gestão de crises, o grau de digitalização, o trabalho em home office, a autonomia dos colaboradores e o grau de supervisão, a aceitação do remoto online. As pessoas repensaram suas prioridades e propósitos, e possivelmente tiveram avanços no ambiente familiar e qualidade de vida. As discussões foram produtivas em torno destas adaptações, e das tendências futuras deste período de mudanças aceleradas;
  • Por outro lado, assistimos o grande represamento de verbas e investimentos que não eram dirigidos diretamente para os processos de negócios, considerando as quedas drásticas de receitas de grande parte dos setores produtivos. Especulo que em boa medida procurou-se manter a rotina das áreas de saúde, segurança, meio ambiente e qualidade, mas houve cortes, principalmente nas atualizações/desenvolvimentos/ mudanças não prioritárias. Em essência, apesar do aumento da preocupação e gestão ESG, muitas das atividades nestes temas ainda são desassociadas do “núcleo duro do core bussiness”;
  • A tendência tecnológica foi exacerbada durante a pandemia. A digitalização avançou sobremaneira, mas na sua maioria baseada nas estruturas e modelos adotados anteriormente, adaptada às necessidades imediatas decorrentes da situação de isolamento social. Em uma parcela das organizações, ela ocorreu sobre novas bases e modelos de negócios. Neste assunto, o céu é o infinito. A espiral exponencial continua o seu caminho;
  • Refletindo sobre o dia da qualidade, ocorrido no dia 08 de novembro, e seu papel nas organizações e vidas pós pandemia, as discussões sobre a necessidade de evoluir na gestão da qualidade são extremamente relevantes como apoio à gestão estratégica, como adaptação, como agilidade, como motor de inovação, como atributo de caráter das pessoas;
  • Aceleram as preocupações com a governança e compliance durante períodos extremos como o vivido em 2020, dado que as regras são flexibilizadas, os hábitos são modificados, a vigilância sobre o remoto e autônomo é relaxada, os montantes de recursos financeiros se multiplicaram,  e as oportunidades e pressões, como expostas pela pirâmide da fraude, são aumentadas. A racionalização e o autoengano perante a fraude são muito facilitados neste momento de sobrevivência e urgência. Vimos o que aconteceu com as verbas gigantescas para a saúde desviadas por fraude e corrupção;

CONCLUSÃO

Ainda estamos num ambiente de grande incerteza com relação a 2021: quando virá a vacina, teremos uma segunda onda no Brasil, como ficará a economia, o auxílio emergencial do governo se tornará permanente, como combater a crise fiscal, como lidar com a inflação e o aumento de juros, o resultado das eleições municipais e o impacto nas eleições de 2022. Além disto, veremos a nova temporada da série: atendimento (ou não) das promessas de campanha do presidente, envolvendo temas como o combate à corrupção, reformas estruturantes, privatização de estatais, dentre outros.

Nós, que militamos nas áreas de qualidade, meio ambiente, responsabilidade social e compliance há mais de 30 anos, participamos dos avanços e dificuldades em mudar a consciência, demonstrar os benefícios, incorporar a prevenção nas rotinas de negócio e gestão estratégica das organizações. O filme mostra paradoxalmente esperança e decepção, motivação e resignação, trabalhos coletivos e interesses privados, bons discursos e práticas superestimadas, diálogo e monólogo, entusiasmo pela tecnologia e preocupação com o humano. Depende de quem está assistindo.

Vivemos no “fio da navalha”. Durante 2020, incorporamos o equilibrista. Olhamos tanto para baixo para não cair no abismo, que não conseguimos mirar à frente para direcionar o caminhar. Mas aprendemos um pouco mais a sobreviver neste ambiente “muvucado”. Só falta aprender a construir um futuro inclusivo e humano, cooperando e dialogando para que o reflexo no espelho seja bonito. Precisamos evoluir as qualidades e a consciência para um propósito maior com as pessoas e com o planeta.

Michel Epelbaum – Diretor da Ellux Consultoria

Diretor da Ellux Consultoria. Tem mais de 25 anos de experiência nacional e internacional em gestão de sustentabilidade, qualidade, meio ambiente, saúde ocupacional e segurança, e compliance. É membro dos Comitês Técnicos da ABNT de Gestão Ambiental, Antissuborno, Riscos, Governança, Responsabilidade Social e Energia. É Lead Assessor nas normas ISO 9001, ISO 14001, OHSAS 18001, ISO 45001, ISO 19600 e ISO 37001.

Consulte nossos serviços de ConsultoriaTreinamento e Auditoria em Sistemas de Gestão, inclusive nas Normas  ISO 14001, ISO 9001, ISO 45001, OHSAS 18001, ISO 37001, ISO 19600, ISO 50001.

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Oferecemos auditorias, consultoria, treinamentos e gamificações em Sistemas de Gestão com base nas Normas ISO 14001, ISO 9001, ISO 45001, ISO 37001, ISO 37301, ISO 19600, ISO 26000, NBR 16001, SA 8000, ISO 50001, ISO 31000, DSC 10000 e outros modelos.